Durante
minha militância na advocacia criminal, convivi com várias pessoas. Algumas
tive o prazer de conhecer, outras nem tanto.
Foram
clientes, familiares dos clientes, familiares das vítimas, policiais militares,
policiais civis, profissionais da justiça, Juízes, Promotores, Delegados, enfim,
profissionais de todos os tipos, assim como pessoas de todos os tipos.
Em
relação aos clientes, em sua grande maioria pessoas que encontravam-se presas
por algum motivo, minha curiosidade sempre me levou a questionar, entender, ou
tentar entender o que leva um cidadão a cometer um crime e o que leva um
cidadão a ingressar na vida criminosa. O que move essa pessoa?
Primeiro,
há que se determinar uma diferença entre uma pessoa que comete um crime e
aquela que ingressa na vida criminosa.
O
primeiro agente é aquela pessoa que não tem nenhuma “passagem”, geralmente é
conhecida por ser “pessoa de bem”, e que por algum motivo comete um crime. Inúmeros
poderiam ser os exemplos, contudo citarei apenas três a título de ilustração: 1º)
Um cidadão que bebe, dirige e mata outra pessoa; 2º) aquele que se envolve em
uma discussão boba, perde a cabeça e agride (ou mata) o outro; 3º) um
funcionário público que por um momento de “bobeira” se apropria indevidamente
de um bem ou dinheiro que pertence ao Estado.
Para esse tipo de pessoa, independente do
crime que cometeu, com certeza será o único. Ou seja, é uma pessoa que tem
consciência que seu ato foi criminoso, que por isso deverá suportar uma pena, e
que após cumprir a pena não voltará a reincidir – cometer novo crime.
Pelas
próprias particularidades dessas pessoas (consciência de que o ato que cometeu
é um crime aliado ao fato de não possuir antecedentes criminais, nem conduta desabonadora
perante a sociedade) esses “tipos” de “criminosos” são a minoria perto da outra
classe, daqueles que ingressam na vida criminosa.
Este
último é o que exige uma maior atenção, pois como explicado anteriormente, o
primeiro agente (que comete um crime) pode ser qualquer um de nós. Esse agente
está na média da sociedade, em geral é bem quisto e o ato criminoso que cometeu
causa grande “assombro” na sociedade.
Já em
relação àquelas pessoas que ingressam na vida criminosa, devemos partir do
pressuposto que após cometer o primeiro crime, continua a cometer outros
crimes.
O que
difere este agente do primeiro (uma pessoa que comete um só crime) é justamente
a falta de consciência média, ou seja, é não se importar se o ato que cometeu é
crime ou não, bem como, se tal ato fere ou agride outra pessoa de alguma forma.
E aqui eu
chego ao ponto que desejava.
O que
move essa pessoa?
Ganância?
Necessidade? Ruindade? Falta de oportunidades? etc etc etc
???
Óbvio que
o tema é questão para desenvolver um Mestrado ou Doutorado, tamanha a
complexidade e as questões que envolvem os agentes que cometem crimes de forma
reiterada. Contudo não é este o intuito do presente artigo. Desejo apenas
partilhar experiência e conclusão.
Em minhas
várias visitas a clientes presos, pude questioná-los diretamente sobre o tema.
Alguns dizem não saber o porquê comete um crime, depois sai da prisão e volta a
cometê-los. Outros dizem que é “falta de oportunidade”, outros que é para
manter o “padrão” de vida, outros que é para manter o vício, outros que é pela
adrenalina, outros porque não arruma trabalho, e assim vão-se as explicações.
Em que
pese ser jurídica minha formação acadêmica, para chegar a um ponto em comum entre
os agentes foi necessário aliar a essa formação acadêmica, a minha formação
espiritual.
Bacharel
em Direito, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, pós-graduando em
Direito do Trabalho e Processo do Trabalho, mas antes de tudo, Católico, Batizado, Crismado e Cursilhista
com muito orgulho e Fé.
Em sendo
assim, não é possível analisar o “preso” somente em seus aspectos jurídicos.
Faz-se necessário analisá-lo também do ponto de vista “humano”.
Puxando o
“fio da meada”, pude chegar a um ponto em comum entre estes agentes: a Família.
Ou melhor, a falta da Família.
E quando
digo família não estou me referindo aquele conjunto formado por uma pessoa que
tem pai, mãe, irmãos etc
Eu digo
família de família mesmo. Laços familiares. Pais que cobram, dão carinho,
atenção e se fazem presentes na vida do filho.
98% das
conversas com os presos que ingressaram na vida criminosa e cometem vários
crimes, um após o outro, em algum momento se direcionam ao mesmo caminho, ao
mesmo assunto, a família.
Percebo
que aquele criminoso ali na minha frente se transforma quando fala de sua
família. Com mágoa, angustia, remorso, raiva, saudade, arrependimento,
preocupação, enfim, quando tocados a falar de sua família, sua infância, seus
pais etc, por vezes aqueles homens que cometeram até crueldades com outro ser
humano, são capazes de chorar.
Aí você
leitor pode dizer:-
“Mas eu
conheço várias pessoas que não tem pai, ou não tem mãe, ou não tem ninguém e
que não virou criminoso”
Sim. É
possível, eu concordo. Acredito que uma pessoa que não tem ninguém por ela pode
seguir o caminho do bem. Mas penso que não chega a 1% da população.
Se
pesquisar a fundo, verá que essa pessoa que “não tem pai, ou não tem mãe, ou
não tem ninguém por ela”, tinha alguém sim.
Tinha uma
pessoa próxima, um parente, um professor, um educador, um vizinho, seja quem
for, essa pessoa que escapou da vida criminosa tinha alguém que lhe deu
atenção, carinho, cobrou, direcionou ao caminho correto e a transformou em um
cidadão de bem.
Quando
digo que para cerca de 98% dos presos faltou a família, estou me referindo a Família como o
berço da formação de regras, princípios e valores.
Se
houvessem mais famílias preocupadas em educar seus filhos com regras,
princípios e valores, atrelados ao carinho, atenção e amor, com certeza nossas
penitenciárias estariam quase, senão totalmente vazias.
Valores
e princípios que, ao se perderem ao longo do tempo, abriram espaço para a falta
de oportunidade, para o consumo desenfreado de bens, para os vícios da vida
moderna, para a necessidade de “adrenalina” de um roubo ao invés daquela
proporcionada através de um esporte, para a falsa busca nas drogas, de tudo aquilo que
não se tem em casa ... etc
Amigo
leitor, se você chegou até este ponto do texto tendo em vista que teve que
acessar o meu blog para continuar sua leitura, tenho para mim que você pode
fazer a diferença neste mundo em que vivemos.
Olhe para
o seu lado, se a sua família é bem estruturada, seus filhos, sua esposa são
pessoas de bem, parabéns! Infelizmente você é uma exceção neste mundo em que
vivemos e sua família não precisa de sua ajuda.
Mas ainda
assim você pode fazer a diferença na vida de alguém. Nós como sociedade,
podemos atuar de forma a diminuir a criminalidade agindo dentro de nossos
ambientes.
Novamente
lhe digo, olhe para o lado. Com certeza alguma pessoa precisa de uma atenção,
uma palavra amiga, um conselho, um carinho, um abraço, um direcionamento. Necessariamente
não precisa ser um estranho. Procure dentro dos seus círculos. Alguém precisa
de você.
Daí
novamente o amigo leitor pode questionar:-
“Mas como
isso vai fazer a diferença a ponto de diminuir a criminalidade?”
Eu lhe
digo, se todos se voltarem para os seus círculos de amizade, família, trabalho
etc (prefiro chamar de ambientes) e começarem a fazer a diferença, ainda que na
vida de uma só pessoa, essa atitude irá se multiplicar. Você ajuda o João, o
João ajuda o Caio e a Júlia, o Caio ajuda a Maria, a Andressa e a Márcia ... e
assim vai.
Seja você
a “família” de outra pessoa.
Ensine
para alguém regras, princípios e valores e distribua carinho, atenção e amor.
Se
durante toda nossa vida pudermos fazer a diferença na vida de uma só pessoa,
com certeza estaremos mudando e transformando o mundo em que vivemos.
Não
desista do “ser humano”. Nunca!



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